O Festival da Bua, a colheita da noz de areca, que marca a paz na ilha timorense de Ataúro
May 16, 2025September 1, 2020 \n\n\nO Festival da Bua, a colheita da noz de areca, que marca a paz na ilha timorense de Ataúro\n\n\n*** António Sampaio, da Agência Lusa ***\nAbaktedi, Timor-Leste, 22 jul 2020 (Lusa) – Os lian-nain, contadores de histórias dos tempos dos “avós antigos” em Timor-Leste, explicam que a festa anual da colheita da noz de areca, ou betel, representa a paz entre três irmãos que durante muito tempo viveram em conflito.\nUma vez por ano, e só por um dia, a população da zona central da ilha reúne-se e assim que os chefes locais e tradicionais permitem, os mais destemidos trepam acelerados até ao topo das palmeiras de areca (bua ou pua nas línguas locais) – algumas com 20 metros – e retiram cachos de nozes.\nJovens e velhos, com uma pequena corda feita muitas vezes de folhas de palmeira atadas, trepam aceleradamente ao longo do esguio tronco da palmeira, cortam os pesados cachos e trazem-nos ao solo.\nQuem sabe podar, usa cordas e, lá no alto, une duas árvores próximas, para assim cortar mais cachos, mais rapidamente. No solo, crianças e mulheres vão apanhando os frutos que caem.\nA cerimónia decorre no meio de uma floresta de palmeiras de areca próximo da povoação de Abaktedi, suco de Makadade, na zona centro sul da ilha de Ataúro.\nPara lá chegar, é necessário suportar uma estrada esburacada e cheia de pedras, a viagem dura uns solavancados 90 minutos, para fazer os cerca de 20 quilómetros de Beloi, junto à costa, até à povoação de Abaktedi, a 700 metros de altitude, à sombra da montanha mais alta da ilha, Manucoco.\nNo centro da floresta de palmeiras, altas e esguias, uma zona foi preparada para os convidados de honra e numa das esquinas o resto de uma palmeira serve para o tarabando, uma cerimónia tradicional timorense que, neste caso, permite pendurar ofertas aos organizadores.\nPeixe seco, tua mutin (o vinho tradicional de palmeira) e areca são pendurados no tronca da palmeira para serem distribuídos depois.\nEm todo o lado, em todas as direções, nasceu um mercado improvisado que vende desde artesanato a comida, desde roupa a frutas e verduras locais, incluindo laranjas, abacates e gigantescos kumbili, uma raiz “parecida à batata”.\nEntre tétum, português e alguns dialetos locais, alguns jovens, mas particularmente os mais velhos vão contando a história dos três irmãos e do importante “Festival da Sa’e Bua”, que se vai prolongar durante toda a noite.\n“Esta história é muito antiga mesmo”, explica Armando Soares, 67 anos, que viajou mais de duas horas a pé, a subir e a descer montes, desde Makili, a vila dos pescadores da ilha.\n“Antigamente nos tempos dos avós mais antigos havia três irmãos: Komateu, Leki-Toko e Kutu-Kia que andavam sempre nas lutas”, explica.\nTomé Gomes, mais jovem, junta-se à conversa e vai ajudando a explicar e a traduzir.\nOs três irmãos estavam sempre em conflito e isso estava a causar sempre grandes problemas aos habitantes, levando até a que as terras ficassem secas e que os cestos de apanha de peixe (bubur) viessem vazios.\n“Decidiram fazer as pazes e esta floresta apareceu assim, de repente”, explica Abilio Araújo, 67 anos, lian-ain de Makadade e o anfitrião tradicional da zona que acolhe a cerimónia.\nPara cimentar a paz usaram a bua, mas também dividiram o território, lançando flechas que marcavam o que ficaria seu: Komateu lançou a sua em direção a Manroni, Leki-Toko em direção a Makili e Kutu-Kia em direção a Makadade.\nKomateu fica com o mar ao norte, Leki-Toko com o mar do oeste e o Kutu-Kia com o mar a sul.\nHoje, os três sucos continuam a simbolizar a paz da ilha, sendo anfitriões do “Festival Sa’e Bua”, um dos principais eventos de Ataúro, desconhecido porventura da maioria dos próprios timorenses.\nA noz de areca, conhecida como betel, é comida fresca ou seca, misturada com folhas de malus – que eram usadas como ‘proteção’ dos jovens nos combates aos ocupantes indonésios – e com cal viva.\nA mistura produz um suco vermelho que, entre dentes, vão cuspindo para o chão, rindo-se com a dentadura, os lábios e a boca de cor vermelho forte.\nA nível químico, a areca tem como princípios ativos a arecaina e arecolina, alcaloides com efeitos comparáveis aos da nicotina.\n“Para quem não experimentou fica assim meio bêbado. Mas para nós ajuda a dar força. Para trabalhar”, explica um velhote, sentado, enquanto vai metendo cal na palma da mão para misturar nos dois outros ingredientes que já tem na boca.\nOs irmãos fizeram a paz e agora, para a assinalar, todos os anos e só por um dia, pode-se colher toda a noz de areca que conseguirem. A que ficar nas árvores fica à guarda de ‘seguranças’ que garantem que só é aproveita para mais plantações, “lá para janeiro”.\n“A pua e a malus são a fonte da vida para Ataúro”, conta o velho lian-nain, num discurso em que mistura referências ao criacionismo com recomendações aos jovens para se portarem bem, e referências às mais antigas lendas da ilha.\n“Isto é muito, muito antigo. Dos avós antigos. E vai continuar sempre”, explica.\n*** A Lusa viajou para Ataúro a convite do programa Tourism for All da USAID, no âmbito da ação de promoção de turismo doméstico #HauNiaTimorLeste ***\nASP // PJA\nLusa/Fim

O Festival da Bua, a colheita da noz de areca, que marca a paz na ilha timorense de Ataúro

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O Festival da Bua, a colheita da noz de areca, que marca a paz na ilha timorense de Ataúro

Source: https://www.timorleste.tl/o-festival-da-bua-a-colheita-da-noz-de-areca-que-marca-a-paz-na-ilha-timorense-de-atauro/
Publication Date: 2025-05-16T13:12:06+00:00
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Description: Celebrate the Bua Festival and its message of peace in Atauro. Discover local culture and join this special event today.

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May 16, 2025September 1, 2020

O Festival da Bua, a colheita da noz de areca, que marca a paz na ilha timorense de Ataúro

*** António Sampaio, da Agência Lusa *** Abaktedi, Timor-Leste, 22 jul 2020 (Lusa) – Os lian-nain, contadores de histórias dos tempos dos “avós antigos” em Timor-Leste, explicam que a festa anual da colheita da noz de areca, ou betel, representa a paz entre três irmãos que durante muito tempo viveram em conflito. Uma vez por ano, e só por um dia, a população da zona central da ilha reúne-se e assim que os chefes locais e tradicionais permitem, os mais destemidos trepam acelerados até ao topo das palmeiras de areca (bua ou pua nas línguas locais) – algumas com 20 metros – e retiram cachos de nozes. Jovens e velhos, com uma pequena corda feita muitas vezes de folhas de palmeira atadas, trepam aceleradamente ao longo do esguio tronco da palmeira, cortam os pesados cachos e trazem-nos ao solo. Quem sabe podar, usa cordas e, lá no alto, une duas árvores próximas, para assim cortar mais cachos, mais rapidamente. No solo, crianças e mulheres vão apanhando os frutos que caem. A cerimónia decorre no meio de uma floresta de palmeiras de areca próximo da povoação de Abaktedi, suco de Makadade, na zona centro sul da ilha de Ataúro. Para lá chegar, é necessário suportar uma estrada esburacada e cheia de pedras, a viagem dura uns solavancados 90 minutos, para fazer os cerca de 20 quilómetros de Beloi, junto à costa, até à povoação de Abaktedi, a 700 metros de altitude, à sombra da montanha mais alta da ilha, Manucoco. No centro da floresta de palmeiras, altas e esguias, uma zona foi preparada para os convidados de honra e numa das esquinas o resto de uma palmeira serve para o tarabando, uma cerimónia tradicional timorense que, neste caso, permite pendurar ofertas aos organizadores. Peixe seco, tua mutin (o vinho tradicional de palmeira) e areca são pendurados no tronca da palmeira para serem distribuídos depois. Em todo o lado, em todas as direções, nasceu um mercado improvisado que vende desde artesanato a comida, desde roupa a frutas e verduras locais, incluindo laranjas, abacates e gigantescos kumbili, uma raiz “parecida à batata”. Entre tétum, português e alguns dialetos locais, alguns jovens, mas particularmente os mais velhos vão contando a história dos três irmãos e do importante “Festival da Sa’e Bua”, que se vai prolongar durante toda a noite. “Esta história é muito antiga mesmo”, explica Armando Soares, 67 anos, que viajou mais de duas horas a pé, a subir e a descer montes, desde Makili, a vila dos pescadores da ilha. “Antigamente nos tempos dos avós mais antigos havia três irmãos: Komateu, Leki-Toko e Kutu-Kia que andavam sempre nas lutas”, explica. Tomé Gomes, mais jovem, junta-se à conversa e vai ajudando a explicar e a traduzir. Os três irmãos estavam sempre em conflito e isso estava a causar sempre grandes problemas aos habitantes, levando até a que as terras ficassem secas e que os cestos de apanha de peixe (bubur) viessem vazios. “Decidiram fazer as pazes e esta floresta apareceu assim, de repente”, explica Abilio Araújo, 67 anos, lian-ain de Makadade e o anfitrião tradicional da zona que acolhe a cerimónia. Para cimentar a paz usaram a bua, mas também dividiram o território, lançando flechas que marcavam o que ficaria seu: Komateu lançou a sua em direção a Manroni, Leki-Toko em direção a Makili e Kutu-Kia em direção a Makadade. Komateu fica com o mar ao norte, Leki-Toko com o mar do oeste e o Kutu-Kia com o mar a sul. Hoje, os três sucos continuam a simbolizar a paz da ilha, sendo anfitriões do “Festival Sa’e Bua”, um dos principais eventos de Ataúro, desconhecido porventura da maioria dos próprios timorenses. A noz de areca, conhecida como betel, é comida fresca ou seca, misturada com folhas de malus – que eram usadas como ‘proteção’ dos jovens nos combates aos ocupantes indonésios – e com cal viva. A mistura produz um suco vermelho que, entre dentes, vão cuspindo para o chão, rindo-se com a dentadura, os lábios e a boca de cor vermelho forte. A nível químico, a areca tem como princípios ativos a arecaina e arecolina, alcaloides com efeitos comparáveis aos da nicotina. “Para quem não experimentou fica assim meio bêbado. Mas para nós ajuda a dar força. Para trabalhar”, explica um velhote, sentado, enquanto vai metendo cal na palma da mão para misturar nos dois outros ingredientes que já tem na boca. Os irmãos fizeram a paz e agora, para a assinalar, todos os anos e só por um dia, pode-se colher toda a noz de areca que conseguirem. A que ficar nas árvores fica à guarda de ‘seguranças’ que garantem que só é aproveita para mais plantações, “lá para janeiro”. “A pua e a malus são a fonte da vida para Ataúro”, conta o velho lian-nain, num discurso em que mistura referências ao criacionismo com recomendações aos jovens para se portarem bem, e referências às mais antigas lendas da ilha. “Isto é muito, muito antigo. Dos avós antigos. E vai continuar sempre”, explica. *** A Lusa viajou para Ataúro a convite do programa Tourism for All da USAID, no âmbito da ação de promoção de turismo doméstico #HauNiaTimorLeste *** ASP // PJA Lusa/Fim

May 16, 2025September 1, 2020

O Festival da Bua, a colheita da noz de areca, que marca a paz na ilha timorense de Ataúro

*** António Sampaio, da Agência Lusa *** Abaktedi, Timor-Leste, 22 jul 2020 (Lusa) – Os lian-nain, contadores de histórias dos tempos dos “avós antigos” em Timor-Leste, explicam que a festa anual da colheita da noz de areca, ou betel, representa a paz entre três irmãos que durante muito tempo viveram em conflito. Uma vez por ano, e só por um dia, a população da zona central da ilha reúne-se e assim que os chefes locais e tradicionais permitem, os mais destemidos trepam acelerados até ao topo das palmeiras de areca (bua ou pua nas línguas locais) – algumas com 20 metros – e retiram cachos de nozes. Jovens e velhos, com uma pequena corda feita muitas vezes de folhas de palmeira atadas, trepam aceleradamente ao longo do esguio tronco da palmeira, cortam os pesados cachos e trazem-nos ao solo. Quem sabe podar, usa cordas e, lá no alto, une duas árvores próximas, para assim cortar mais cachos, mais rapidamente. No solo, crianças e mulheres vão apanhando os frutos que caem. A cerimónia decorre no meio de uma floresta de palmeiras de areca próximo da povoação de Abaktedi, suco de Makadade, na zona centro sul da ilha de Ataúro. Para lá chegar, é necessário suportar uma estrada esburacada e cheia de pedras, a viagem dura uns solavancados 90 minutos, para fazer os cerca de 20 quilómetros de Beloi, junto à costa, até à povoação de Abaktedi, a 700 metros de altitude, à sombra da montanha mais alta da ilha, Manucoco. No centro da floresta de palmeiras, altas e esguias, uma zona foi preparada para os convidados de honra e numa das esquinas o resto de uma palmeira serve para o tarabando, uma cerimónia tradicional timorense que, neste caso, permite pendurar ofertas aos organizadores. Peixe seco, tua mutin (o vinho tradicional de palmeira) e areca são pendurados no tronca da palmeira para serem distribuídos depois. Em todo o lado, em todas as direções, nasceu um mercado improvisado que vende desde artesanato a comida, desde roupa a frutas e verduras locais, incluindo laranjas, abacates e gigantescos kumbili, uma raiz “parecida à batata”. Entre tétum, português e alguns dialetos locais, alguns jovens, mas particularmente os mais velhos vão contando a história dos três irmãos e do importante “Festival da Sa’e Bua”, que se vai prolongar durante toda a noite. “Esta história é muito antiga mesmo”, explica Armando Soares, 67 anos, que viajou mais de duas horas a pé, a subir e a descer montes, desde Makili, a vila dos pescadores da ilha. “Antigamente nos tempos dos avós mais antigos havia três irmãos: Komateu, Leki-Toko e Kutu-Kia que andavam sempre nas lutas”, explica. Tomé Gomes, mais jovem, junta-se à conversa e vai ajudando a explicar e a traduzir. Os três irmãos estavam sempre em conflito e isso estava a causar sempre grandes problemas aos habitantes, levando até a que as terras ficassem secas e que os cestos de apanha de peixe (bubur) viessem vazios. “Decidiram fazer as pazes e esta floresta apareceu assim, de repente”, explica Abilio Araújo, 67 anos, lian-ain de Makadade e o anfitrião tradicional da zona que acolhe a cerimónia. Para cimentar a paz usaram a bua, mas também dividiram o território, lançando flechas que marcavam o que ficaria seu: Komateu lançou a sua em direção a Manroni, Leki-Toko em direção a Makili e Kutu-Kia em direção a Makadade. Komateu fica com o mar ao norte, Leki-Toko com o mar do oeste e o Kutu-Kia com o mar a sul. Hoje, os três sucos continuam a simbolizar a paz da ilha, sendo anfitriões do “Festival Sa’e Bua”, um dos principais eventos de Ataúro, desconhecido porventura da maioria dos próprios timorenses. A noz de areca, conhecida como betel, é comida fresca ou seca, misturada com folhas de malus – que eram usadas como ‘proteção’ dos jovens nos combates aos ocupantes indonésios – e com cal viva. A mistura produz um suco vermelho que, entre dentes, vão cuspindo para o chão, rindo-se com a dentadura, os lábios e a boca de cor vermelho forte. A nível químico, a areca tem como princípios ativos a arecaina e arecolina, alcaloides com efeitos comparáveis aos da nicotina. “Para quem não experimentou fica assim meio bêbado. Mas para nós ajuda a dar força. Para trabalhar”, explica um velhote, sentado, enquanto vai metendo cal na palma da mão para misturar nos dois outros ingredientes que já tem na boca. Os irmãos fizeram a paz e agora, para a assinalar, todos os anos e só por um dia, pode-se colher toda a noz de areca que conseguirem. A que ficar nas árvores fica à guarda de ‘seguranças’ que garantem que só é aproveita para mais plantações, “lá para janeiro”. “A pua e a malus são a fonte da vida para Ataúro”, conta o velho lian-nain, num discurso em que mistura referências ao criacionismo com recomendações aos jovens para se portarem bem, e referências às mais antigas lendas da ilha. “Isto é muito, muito antigo. Dos avós antigos. E vai continuar sempre”, explica. *** A Lusa viajou para Ataúro a convite do programa Tourism for All da USAID, no âmbito da ação de promoção de turismo doméstico #HauNiaTimorLeste *** ASP // PJA Lusa/Fim

O Festival da Bua, a colheita da noz de areca, que marca a paz na ilha timorense de Ataúro

*** António Sampaio, da Agência Lusa *** Abaktedi, Timor-Leste, 22 jul 2020 (Lusa) – Os lian-nain, contadores de histórias dos tempos dos “avós antigos” em Timor-Leste, explicam que a festa anual da colheita da noz de areca, ou betel, representa a paz entre três irmãos que durante muito tempo viveram em conflito. Uma vez por ano, e só por um dia, a população da zona central da ilha reúne-se e assim que os chefes locais e tradicionais permitem, os mais destemidos trepam acelerados até ao topo das palmeiras de areca (bua ou pua nas línguas locais) – algumas com 20 metros – e retiram cachos de nozes. Jovens e velhos, com uma pequena corda feita muitas vezes de folhas de palmeira atadas, trepam aceleradamente ao longo do esguio tronco da palmeira, cortam os pesados cachos e trazem-nos ao solo. Quem sabe podar, usa cordas e, lá no alto, une duas árvores próximas, para assim cortar mais cachos, mais rapidamente. No solo, crianças e mulheres vão apanhando os frutos que caem. A cerimónia decorre no meio de uma floresta de palmeiras de areca próximo da povoação de Abaktedi, suco de Makadade, na zona centro sul da ilha de Ataúro. Para lá chegar, é necessário suportar uma estrada esburacada e cheia de pedras, a viagem dura uns solavancados 90 minutos, para fazer os cerca de 20 quilómetros de Beloi, junto à costa, até à povoação de Abaktedi, a 700 metros de altitude, à sombra da montanha mais alta da ilha, Manucoco. No centro da floresta de palmeiras, altas e esguias, uma zona foi preparada para os convidados de honra e numa das esquinas o resto de uma palmeira serve para o tarabando, uma cerimónia tradicional timorense que, neste caso, permite pendurar ofertas aos organizadores. Peixe seco, tua mutin (o vinho tradicional de palmeira) e areca são pendurados no tronca da palmeira para serem distribuídos depois. Em todo o lado, em todas as direções, nasceu um mercado improvisado que vende desde artesanato a comida, desde roupa a frutas e verduras locais, incluindo laranjas, abacates e gigantescos kumbili, uma raiz “parecida à batata”. Entre tétum, português e alguns dialetos locais, alguns jovens, mas particularmente os mais velhos vão contando a história dos três irmãos e do importante “Festival da Sa’e Bua”, que se vai prolongar durante toda a noite. “Esta história é muito antiga mesmo”, explica Armando Soares, 67 anos, que viajou mais de duas horas a pé, a subir e a descer montes, desde Makili, a vila dos pescadores da ilha. “Antigamente nos tempos dos avós mais antigos havia três irmãos: Komateu, Leki-Toko e Kutu-Kia que andavam sempre nas lutas”, explica. Tomé Gomes, mais jovem, junta-se à conversa e vai ajudando a explicar e a traduzir. Os três irmãos estavam sempre em conflito e isso estava a causar sempre grandes problemas aos habitantes, levando até a que as terras ficassem secas e que os cestos de apanha de peixe (bubur) viessem vazios. “Decidiram fazer as pazes e esta floresta apareceu assim, de repente”, explica Abilio Araújo, 67 anos, lian-ain de Makadade e o anfitrião tradicional da zona que acolhe a cerimónia. Para cimentar a paz usaram a bua, mas também dividiram o território, lançando flechas que marcavam o que ficaria seu: Komateu lançou a sua em direção a Manroni, Leki-Toko em direção a Makili e Kutu-Kia em direção a Makadade. Komateu fica com o mar ao norte, Leki-Toko com o mar do oeste e o Kutu-Kia com o mar a sul. Hoje, os três sucos continuam a simbolizar a paz da ilha, sendo anfitriões do “Festival Sa’e Bua”, um dos principais eventos de Ataúro, desconhecido porventura da maioria dos próprios timorenses. A noz de areca, conhecida como betel, é comida fresca ou seca, misturada com folhas de malus – que eram usadas como ‘proteção’ dos jovens nos combates aos ocupantes indonésios – e com cal viva. A mistura produz um suco vermelho que, entre dentes, vão cuspindo para o chão, rindo-se com a dentadura, os lábios e a boca de cor vermelho forte. A nível químico, a areca tem como princípios ativos a arecaina e arecolina, alcaloides com efeitos comparáveis aos da nicotina. “Para quem não experimentou fica assim meio bêbado. Mas para nós ajuda a dar força. Para trabalhar”, explica um velhote, sentado, enquanto vai metendo cal na palma da mão para misturar nos dois outros ingredientes que já tem na boca. Os irmãos fizeram a paz e agora, para a assinalar, todos os anos e só por um dia, pode-se colher toda a noz de areca que conseguirem. A que ficar nas árvores fica à guarda de ‘seguranças’ que garantem que só é aproveita para mais plantações, “lá para janeiro”. “A pua e a malus são a fonte da vida para Ataúro”, conta o velho lian-nain, num discurso em que mistura referências ao criacionismo com recomendações aos jovens para se portarem bem, e referências às mais antigas lendas da ilha. “Isto é muito, muito antigo. Dos avós antigos. E vai continuar sempre”, explica. *** A Lusa viajou para Ataúro a convite do programa Tourism for All da USAID, no âmbito da ação de promoção de turismo doméstico #HauNiaTimorLeste *** ASP // PJA Lusa/Fim

O Festival da Bua, a colheita da noz de areca, que marca a paz na ilha timorense de Ataúro

O Festival da Bua, a colheita da noz de areca, que marca a paz na ilha timorense de Ataúro

O Festival da Bua, a colheita da noz de areca, que marca a paz na ilha timorense de Ataúro

O Festival da Bua, a colheita da noz de areca, que marca a paz na ilha timorense de Ataúro

O Festival da Bua, a colheita da noz de areca, que marca a paz na ilha timorense de Ataúro

*** António Sampaio, da Agência Lusa *** Abaktedi, Timor-Leste, 22 jul 2020 (Lusa) – Os lian-nain, contadores de histórias dos tempos dos “avós antigos” em Timor-Leste, explicam que a festa anual da colheita da noz de areca, ou betel, representa a paz entre três irmãos que durante muito tempo viveram em conflito. Uma vez por ano, e só por um dia, a população da zona central da ilha reúne-se e assim que os chefes locais e tradicionais permitem, os mais destemidos trepam acelerados até ao topo das palmeiras de areca (bua ou pua nas línguas locais) – algumas com 20 metros – e retiram cachos de nozes. Jovens e velhos, com uma pequena corda feita muitas vezes de folhas de palmeira atadas, trepam aceleradamente ao longo do esguio tronco da palmeira, cortam os pesados cachos e trazem-nos ao solo. Quem sabe podar, usa cordas e, lá no alto, une duas árvores próximas, para assim cortar mais cachos, mais rapidamente. No solo, crianças e mulheres vão apanhando os frutos que caem. A cerimónia decorre no meio de uma floresta de palmeiras de areca próximo da povoação de Abaktedi, suco de Makadade, na zona centro sul da ilha de Ataúro. Para lá chegar, é necessário suportar uma estrada esburacada e cheia de pedras, a viagem dura uns solavancados 90 minutos, para fazer os cerca de 20 quilómetros de Beloi, junto à costa, até à povoação de Abaktedi, a 700 metros de altitude, à sombra da montanha mais alta da ilha, Manucoco. No centro da floresta de palmeiras, altas e esguias, uma zona foi preparada para os convidados de honra e numa das esquinas o resto de uma palmeira serve para o tarabando, uma cerimónia tradicional timorense que, neste caso, permite pendurar ofertas aos organizadores. Peixe seco, tua mutin (o vinho tradicional de palmeira) e areca são pendurados no tronca da palmeira para serem distribuídos depois. Em todo o lado, em todas as direções, nasceu um mercado improvisado que vende desde artesanato a comida, desde roupa a frutas e verduras locais, incluindo laranjas, abacates e gigantescos kumbili, uma raiz “parecida à batata”. Entre tétum, português e alguns dialetos locais, alguns jovens, mas particularmente os mais velhos vão contando a história dos três irmãos e do importante “Festival da Sa’e Bua”, que se vai prolongar durante toda a noite. “Esta história é muito antiga mesmo”, explica Armando Soares, 67 anos, que viajou mais de duas horas a pé, a subir e a descer montes, desde Makili, a vila dos pescadores da ilha. “Antigamente nos tempos dos avós mais antigos havia três irmãos: Komateu, Leki-Toko e Kutu-Kia que andavam sempre nas lutas”, explica. Tomé Gomes, mais jovem, junta-se à conversa e vai ajudando a explicar e a traduzir. Os três irmãos estavam sempre em conflito e isso estava a causar sempre grandes problemas aos habitantes, levando até a que as terras ficassem secas e que os cestos de apanha de peixe (bubur) viessem vazios. “Decidiram fazer as pazes e esta floresta apareceu assim, de repente”, explica Abilio Araújo, 67 anos, lian-ain de Makadade e o anfitrião tradicional da zona que acolhe a cerimónia. Para cimentar a paz usaram a bua, mas também dividiram o território, lançando flechas que marcavam o que ficaria seu: Komateu lançou a sua em direção a Manroni, Leki-Toko em direção a Makili e Kutu-Kia em direção a Makadade. Komateu fica com o mar ao norte, Leki-Toko com o mar do oeste e o Kutu-Kia com o mar a sul. Hoje, os três sucos continuam a simbolizar a paz da ilha, sendo anfitriões do “Festival Sa’e Bua”, um dos principais eventos de Ataúro, desconhecido porventura da maioria dos próprios timorenses. A noz de areca, conhecida como betel, é comida fresca ou seca, misturada com folhas de malus – que eram usadas como ‘proteção’ dos jovens nos combates aos ocupantes indonésios – e com cal viva. A mistura produz um suco vermelho que, entre dentes, vão cuspindo para o chão, rindo-se com a dentadura, os lábios e a boca de cor vermelho forte. A nível químico, a areca tem como princípios ativos a arecaina e arecolina, alcaloides com efeitos comparáveis aos da nicotina. “Para quem não experimentou fica assim meio bêbado. Mas para nós ajuda a dar força. Para trabalhar”, explica um velhote, sentado, enquanto vai metendo cal na palma da mão para misturar nos dois outros ingredientes que já tem na boca. Os irmãos fizeram a paz e agora, para a assinalar, todos os anos e só por um dia, pode-se colher toda a noz de areca que conseguirem. A que ficar nas árvores fica à guarda de ‘seguranças’ que garantem que só é aproveita para mais plantações, “lá para janeiro”. “A pua e a malus são a fonte da vida para Ataúro”, conta o velho lian-nain, num discurso em que mistura referências ao criacionismo com recomendações aos jovens para se portarem bem, e referências às mais antigas lendas da ilha. “Isto é muito, muito antigo. Dos avós antigos. E vai continuar sempre”, explica. *** A Lusa viajou para Ataúro a convite do programa Tourism for All da USAID, no âmbito da ação de promoção de turismo doméstico #HauNiaTimorLeste *** ASP // PJA Lusa/Fim

*** António Sampaio, da Agência Lusa *** Abaktedi, Timor-Leste, 22 jul 2020 (Lusa) – Os lian-nain, contadores de histórias dos tempos dos “avós antigos” em Timor-Leste, explicam que a festa anual da colheita da noz de areca, ou betel, representa a paz entre três irmãos que durante muito tempo viveram em conflito. Uma vez por ano, e só por um dia, a população da zona central da ilha reúne-se e assim que os chefes locais e tradicionais permitem, os mais destemidos trepam acelerados até ao topo das palmeiras de areca (bua ou pua nas línguas locais) – algumas com 20 metros – e retiram cachos de nozes. Jovens e velhos, com uma pequena corda feita muitas vezes de folhas de palmeira atadas, trepam aceleradamente ao longo do esguio tronco da palmeira, cortam os pesados cachos e trazem-nos ao solo. Quem sabe podar, usa cordas e, lá no alto, une duas árvores próximas, para assim cortar mais cachos, mais rapidamente. No solo, crianças e mulheres vão apanhando os frutos que caem. A cerimónia decorre no meio de uma floresta de palmeiras de areca próximo da povoação de Abaktedi, suco de Makadade, na zona centro sul da ilha de Ataúro. Para lá chegar, é necessário suportar uma estrada esburacada e cheia de pedras, a viagem dura uns solavancados 90 minutos, para fazer os cerca de 20 quilómetros de Beloi, junto à costa, até à povoação de Abaktedi, a 700 metros de altitude, à sombra da montanha mais alta da ilha, Manucoco. No centro da floresta de palmeiras, altas e esguias, uma zona foi preparada para os convidados de honra e numa das esquinas o resto de uma palmeira serve para o tarabando, uma cerimónia tradicional timorense que, neste caso, permite pendurar ofertas aos organizadores. Peixe seco, tua mutin (o vinho tradicional de palmeira) e areca são pendurados no tronca da palmeira para serem distribuídos depois. Em todo o lado, em todas as direções, nasceu um mercado improvisado que vende desde artesanato a comida, desde roupa a frutas e verduras locais, incluindo laranjas, abacates e gigantescos kumbili, uma raiz “parecida à batata”. Entre tétum, português e alguns dialetos locais, alguns jovens, mas particularmente os mais velhos vão contando a história dos três irmãos e do importante “Festival da Sa’e Bua”, que se vai prolongar durante toda a noite. “Esta história é muito antiga mesmo”, explica Armando Soares, 67 anos, que viajou mais de duas horas a pé, a subir e a descer montes, desde Makili, a vila dos pescadores da ilha. “Antigamente nos tempos dos avós mais antigos havia três irmãos: Komateu, Leki-Toko e Kutu-Kia que andavam sempre nas lutas”, explica. Tomé Gomes, mais jovem, junta-se à conversa e vai ajudando a explicar e a traduzir. Os três irmãos estavam sempre em conflito e isso estava a causar sempre grandes problemas aos habitantes, levando até a que as terras ficassem secas e que os cestos de apanha de peixe (bubur) viessem vazios. “Decidiram fazer as pazes e esta floresta apareceu assim, de repente”, explica Abilio Araújo, 67 anos, lian-ain de Makadade e o anfitrião tradicional da zona que acolhe a cerimónia. Para cimentar a paz usaram a bua, mas também dividiram o território, lançando flechas que marcavam o que ficaria seu: Komateu lançou a sua em direção a Manroni, Leki-Toko em direção a Makili e Kutu-Kia em direção a Makadade. Komateu fica com o mar ao norte, Leki-Toko com o mar do oeste e o Kutu-Kia com o mar a sul. Hoje, os três sucos continuam a simbolizar a paz da ilha, sendo anfitriões do “Festival Sa’e Bua”, um dos principais eventos de Ataúro, desconhecido porventura da maioria dos próprios timorenses. A noz de areca, conhecida como betel, é comida fresca ou seca, misturada com folhas de malus – que eram usadas como ‘proteção’ dos jovens nos combates aos ocupantes indonésios – e com cal viva. A mistura produz um suco vermelho que, entre dentes, vão cuspindo para o chão, rindo-se com a dentadura, os lábios e a boca de cor vermelho forte. A nível químico, a areca tem como princípios ativos a arecaina e arecolina, alcaloides com efeitos comparáveis aos da nicotina. “Para quem não experimentou fica assim meio bêbado. Mas para nós ajuda a dar força. Para trabalhar”, explica um velhote, sentado, enquanto vai metendo cal na palma da mão para misturar nos dois outros ingredientes que já tem na boca. Os irmãos fizeram a paz e agora, para a assinalar, todos os anos e só por um dia, pode-se colher toda a noz de areca que conseguirem. A que ficar nas árvores fica à guarda de ‘seguranças’ que garantem que só é aproveita para mais plantações, “lá para janeiro”. “A pua e a malus são a fonte da vida para Ataúro”, conta o velho lian-nain, num discurso em que mistura referências ao criacionismo com recomendações aos jovens para se portarem bem, e referências às mais antigas lendas da ilha. “Isto é muito, muito antigo. Dos avós antigos. E vai continuar sempre”, explica. *** A Lusa viajou para Ataúro a convite do programa Tourism for All da USAID, no âmbito da ação de promoção de turismo doméstico #HauNiaTimorLeste *** ASP // PJA Lusa/Fim

*** António Sampaio, da Agência Lusa *** Abaktedi, Timor-Leste, 22 jul 2020 (Lusa) – Os lian-nain, contadores de histórias dos tempos dos “avós antigos” em Timor-Leste, explicam que a festa anual da colheita da noz de areca, ou betel, representa a paz entre três irmãos que durante muito tempo viveram em conflito. Uma vez por ano, e só por um dia, a população da zona central da ilha reúne-se e assim que os chefes locais e tradicionais permitem, os mais destemidos trepam acelerados até ao topo das palmeiras de areca (bua ou pua nas línguas locais) – algumas com 20 metros – e retiram cachos de nozes. Jovens e velhos, com uma pequena corda feita muitas vezes de folhas de palmeira atadas, trepam aceleradamente ao longo do esguio tronco da palmeira, cortam os pesados cachos e trazem-nos ao solo. Quem sabe podar, usa cordas e, lá no alto, une duas árvores próximas, para assim cortar mais cachos, mais rapidamente. No solo, crianças e mulheres vão apanhando os frutos que caem. A cerimónia decorre no meio de uma floresta de palmeiras de areca próximo da povoação de Abaktedi, suco de Makadade, na zona centro sul da ilha de Ataúro. Para lá chegar, é necessário suportar uma estrada esburacada e cheia de pedras, a viagem dura uns solavancados 90 minutos, para fazer os cerca de 20 quilómetros de Beloi, junto à costa, até à povoação de Abaktedi, a 700 metros de altitude, à sombra da montanha mais alta da ilha, Manucoco. No centro da floresta de palmeiras, altas e esguias, uma zona foi preparada para os convidados de honra e numa das esquinas o resto de uma palmeira serve para o tarabando, uma cerimónia tradicional timorense que, neste caso, permite pendurar ofertas aos organizadores. Peixe seco, tua mutin (o vinho tradicional de palmeira) e areca são pendurados no tronca da palmeira para serem distribuídos depois. Em todo o lado, em todas as direções, nasceu um mercado improvisado que vende desde artesanato a comida, desde roupa a frutas e verduras locais, incluindo laranjas, abacates e gigantescos kumbili, uma raiz “parecida à batata”. Entre tétum, português e alguns dialetos locais, alguns jovens, mas particularmente os mais velhos vão contando a história dos três irmãos e do importante “Festival da Sa’e Bua”, que se vai prolongar durante toda a noite. “Esta história é muito antiga mesmo”, explica Armando Soares, 67 anos, que viajou mais de duas horas a pé, a subir e a descer montes, desde Makili, a vila dos pescadores da ilha. “Antigamente nos tempos dos avós mais antigos havia três irmãos: Komateu, Leki-Toko e Kutu-Kia que andavam sempre nas lutas”, explica. Tomé Gomes, mais jovem, junta-se à conversa e vai ajudando a explicar e a traduzir. Os três irmãos estavam sempre em conflito e isso estava a causar sempre grandes problemas aos habitantes, levando até a que as terras ficassem secas e que os cestos de apanha de peixe (bubur) viessem vazios. “Decidiram fazer as pazes e esta floresta apareceu assim, de repente”, explica Abilio Araújo, 67 anos, lian-ain de Makadade e o anfitrião tradicional da zona que acolhe a cerimónia. Para cimentar a paz usaram a bua, mas também dividiram o território, lançando flechas que marcavam o que ficaria seu: Komateu lançou a sua em direção a Manroni, Leki-Toko em direção a Makili e Kutu-Kia em direção a Makadade. Komateu fica com o mar ao norte, Leki-Toko com o mar do oeste e o Kutu-Kia com o mar a sul. Hoje, os três sucos continuam a simbolizar a paz da ilha, sendo anfitriões do “Festival Sa’e Bua”, um dos principais eventos de Ataúro, desconhecido porventura da maioria dos próprios timorenses. A noz de areca, conhecida como betel, é comida fresca ou seca, misturada com folhas de malus – que eram usadas como ‘proteção’ dos jovens nos combates aos ocupantes indonésios – e com cal viva. A mistura produz um suco vermelho que, entre dentes, vão cuspindo para o chão, rindo-se com a dentadura, os lábios e a boca de cor vermelho forte. A nível químico, a areca tem como princípios ativos a arecaina e arecolina, alcaloides com efeitos comparáveis aos da nicotina. “Para quem não experimentou fica assim meio bêbado. Mas para nós ajuda a dar força. Para trabalhar”, explica um velhote, sentado, enquanto vai metendo cal na palma da mão para misturar nos dois outros ingredientes que já tem na boca. Os irmãos fizeram a paz e agora, para a assinalar, todos os anos e só por um dia, pode-se colher toda a noz de areca que conseguirem. A que ficar nas árvores fica à guarda de ‘seguranças’ que garantem que só é aproveita para mais plantações, “lá para janeiro”. “A pua e a malus são a fonte da vida para Ataúro”, conta o velho lian-nain, num discurso em que mistura referências ao criacionismo com recomendações aos jovens para se portarem bem, e referências às mais antigas lendas da ilha. “Isto é muito, muito antigo. Dos avós antigos. E vai continuar sempre”, explica. *** A Lusa viajou para Ataúro a convite do programa Tourism for All da USAID, no âmbito da ação de promoção de turismo doméstico #HauNiaTimorLeste *** ASP // PJA Lusa/Fim

*** António Sampaio, da Agência Lusa *** Abaktedi, Timor-Leste, 22 jul 2020 (Lusa) – Os lian-nain, contadores de histórias dos tempos dos “avós antigos” em Timor-Leste, explicam que a festa anual da colheita da noz de areca, ou betel, representa a paz entre três irmãos que durante muito tempo viveram em conflito. Uma vez por ano, e só por um dia, a população da zona central da ilha reúne-se e assim que os chefes locais e tradicionais permitem, os mais destemidos trepam acelerados até ao topo das palmeiras de areca (bua ou pua nas línguas locais) – algumas com 20 metros – e retiram cachos de nozes. Jovens e velhos, com uma pequena corda feita muitas vezes de folhas de palmeira atadas, trepam aceleradamente ao longo do esguio tronco da palmeira, cortam os pesados cachos e trazem-nos ao solo. Quem sabe podar, usa cordas e, lá no alto, une duas árvores próximas, para assim cortar mais cachos, mais rapidamente. No solo, crianças e mulheres vão apanhando os frutos que caem. A cerimónia decorre no meio de uma floresta de palmeiras de areca próximo da povoação de Abaktedi, suco de Makadade, na zona centro sul da ilha de Ataúro. Para lá chegar, é necessário suportar uma estrada esburacada e cheia de pedras, a viagem dura uns solavancados 90 minutos, para fazer os cerca de 20 quilómetros de Beloi, junto à costa, até à povoação de Abaktedi, a 700 metros de altitude, à sombra da montanha mais alta da ilha, Manucoco. No centro da floresta de palmeiras, altas e esguias, uma zona foi preparada para os convidados de honra e numa das esquinas o resto de uma palmeira serve para o tarabando, uma cerimónia tradicional timorense que, neste caso, permite pendurar ofertas aos organizadores. Peixe seco, tua mutin (o vinho tradicional de palmeira) e areca são pendurados no tronca da palmeira para serem distribuídos depois. Em todo o lado, em todas as direções, nasceu um mercado improvisado que vende desde artesanato a comida, desde roupa a frutas e verduras locais, incluindo laranjas, abacates e gigantescos kumbili, uma raiz “parecida à batata”. Entre tétum, português e alguns dialetos locais, alguns jovens, mas particularmente os mais velhos vão contando a história dos três irmãos e do importante “Festival da Sa’e Bua”, que se vai prolongar durante toda a noite. “Esta história é muito antiga mesmo”, explica Armando Soares, 67 anos, que viajou mais de duas horas a pé, a subir e a descer montes, desde Makili, a vila dos pescadores da ilha. “Antigamente nos tempos dos avós mais antigos havia três irmãos: Komateu, Leki-Toko e Kutu-Kia que andavam sempre nas lutas”, explica. Tomé Gomes, mais jovem, junta-se à conversa e vai ajudando a explicar e a traduzir. Os três irmãos estavam sempre em conflito e isso estava a causar sempre grandes problemas aos habitantes, levando até a que as terras ficassem secas e que os cestos de apanha de peixe (bubur) viessem vazios. “Decidiram fazer as pazes e esta floresta apareceu assim, de repente”, explica Abilio Araújo, 67 anos, lian-ain de Makadade e o anfitrião tradicional da zona que acolhe a cerimónia. Para cimentar a paz usaram a bua, mas também dividiram o território, lançando flechas que marcavam o que ficaria seu: Komateu lançou a sua em direção a Manroni, Leki-Toko em direção a Makili e Kutu-Kia em direção a Makadade. Komateu fica com o mar ao norte, Leki-Toko com o mar do oeste e o Kutu-Kia com o mar a sul. Hoje, os três sucos continuam a simbolizar a paz da ilha, sendo anfitriões do “Festival Sa’e Bua”, um dos principais eventos de Ataúro, desconhecido porventura da maioria dos próprios timorenses. A noz de areca, conhecida como betel, é comida fresca ou seca, misturada com folhas de malus – que eram usadas como ‘proteção’ dos jovens nos combates aos ocupantes indonésios – e com cal viva. A mistura produz um suco vermelho que, entre dentes, vão cuspindo para o chão, rindo-se com a dentadura, os lábios e a boca de cor vermelho forte. A nível químico, a areca tem como princípios ativos a arecaina e arecolina, alcaloides com efeitos comparáveis aos da nicotina. “Para quem não experimentou fica assim meio bêbado. Mas para nós ajuda a dar força. Para trabalhar”, explica um velhote, sentado, enquanto vai metendo cal na palma da mão para misturar nos dois outros ingredientes que já tem na boca. Os irmãos fizeram a paz e agora, para a assinalar, todos os anos e só por um dia, pode-se colher toda a noz de areca que conseguirem. A que ficar nas árvores fica à guarda de ‘seguranças’ que garantem que só é aproveita para mais plantações, “lá para janeiro”. “A pua e a malus são a fonte da vida para Ataúro”, conta o velho lian-nain, num discurso em que mistura referências ao criacionismo com recomendações aos jovens para se portarem bem, e referências às mais antigas lendas da ilha. “Isto é muito, muito antigo. Dos avós antigos. E vai continuar sempre”, explica. *** A Lusa viajou para Ataúro a convite do programa Tourism for All da USAID, no âmbito da ação de promoção de turismo doméstico #HauNiaTimorLeste *** ASP // PJA Lusa/Fim

*** António Sampaio, da Agência Lusa *** Abaktedi, Timor-Leste, 22 jul 2020 (Lusa) – Os lian-nain, contadores de histórias dos tempos dos “avós antigos” em Timor-Leste, explicam que a festa anual da colheita da noz de areca, ou betel, representa a paz entre três irmãos que durante muito tempo viveram em conflito. Uma vez por ano, e só por um dia, a população da zona central da ilha reúne-se e assim que os chefes locais e tradicionais permitem, os mais destemidos trepam acelerados até ao topo das palmeiras de areca (bua ou pua nas línguas locais) – algumas com 20 metros – e retiram cachos de nozes. Jovens e velhos, com uma pequena corda feita muitas vezes de folhas de palmeira atadas, trepam aceleradamente ao longo do esguio tronco da palmeira, cortam os pesados cachos e trazem-nos ao solo. Quem sabe podar, usa cordas e, lá no alto, une duas árvores próximas, para assim cortar mais cachos, mais rapidamente. No solo, crianças e mulheres vão apanhando os frutos que caem. A cerimónia decorre no meio de uma floresta de palmeiras de areca próximo da povoação de Abaktedi, suco de Makadade, na zona centro sul da ilha de Ataúro. Para lá chegar, é necessário suportar uma estrada esburacada e cheia de pedras, a viagem dura uns solavancados 90 minutos, para fazer os cerca de 20 quilómetros de Beloi, junto à costa, até à povoação de Abaktedi, a 700 metros de altitude, à sombra da montanha mais alta da ilha, Manucoco. No centro da floresta de palmeiras, altas e esguias, uma zona foi preparada para os convidados de honra e numa das esquinas o resto de uma palmeira serve para o tarabando, uma cerimónia tradicional timorense que, neste caso, permite pendurar ofertas aos organizadores. Peixe seco, tua mutin (o vinho tradicional de palmeira) e areca são pendurados no tronca da palmeira para serem distribuídos depois. Em todo o lado, em todas as direções, nasceu um mercado improvisado que vende desde artesanato a comida, desde roupa a frutas e verduras locais, incluindo laranjas, abacates e gigantescos kumbili, uma raiz “parecida à batata”. Entre tétum, português e alguns dialetos locais, alguns jovens, mas particularmente os mais velhos vão contando a história dos três irmãos e do importante “Festival da Sa’e Bua”, que se vai prolongar durante toda a noite. “Esta história é muito antiga mesmo”, explica Armando Soares, 67 anos, que viajou mais de duas horas a pé, a subir e a descer montes, desde Makili, a vila dos pescadores da ilha. “Antigamente nos tempos dos avós mais antigos havia três irmãos: Komateu, Leki-Toko e Kutu-Kia que andavam sempre nas lutas”, explica. Tomé Gomes, mais jovem, junta-se à conversa e vai ajudando a explicar e a traduzir. Os três irmãos estavam sempre em conflito e isso estava a causar sempre grandes problemas aos habitantes, levando até a que as terras ficassem secas e que os cestos de apanha de peixe (bubur) viessem vazios. “Decidiram fazer as pazes e esta floresta apareceu assim, de repente”, explica Abilio Araújo, 67 anos, lian-ain de Makadade e o anfitrião tradicional da zona que acolhe a cerimónia. Para cimentar a paz usaram a bua, mas também dividiram o território, lançando flechas que marcavam o que ficaria seu: Komateu lançou a sua em direção a Manroni, Leki-Toko em direção a Makili e Kutu-Kia em direção a Makadade. Komateu fica com o mar ao norte, Leki-Toko com o mar do oeste e o Kutu-Kia com o mar a sul. Hoje, os três sucos continuam a simbolizar a paz da ilha, sendo anfitriões do “Festival Sa’e Bua”, um dos principais eventos de Ataúro, desconhecido porventura da maioria dos próprios timorenses. A noz de areca, conhecida como betel, é comida fresca ou seca, misturada com folhas de malus – que eram usadas como ‘proteção’ dos jovens nos combates aos ocupantes indonésios – e com cal viva. A mistura produz um suco vermelho que, entre dentes, vão cuspindo para o chão, rindo-se com a dentadura, os lábios e a boca de cor vermelho forte. A nível químico, a areca tem como princípios ativos a arecaina e arecolina, alcaloides com efeitos comparáveis aos da nicotina. “Para quem não experimentou fica assim meio bêbado. Mas para nós ajuda a dar força. Para trabalhar”, explica um velhote, sentado, enquanto vai metendo cal na palma da mão para misturar nos dois outros ingredientes que já tem na boca. Os irmãos fizeram a paz e agora, para a assinalar, todos os anos e só por um dia, pode-se colher toda a noz de areca que conseguirem. A que ficar nas árvores fica à guarda de ‘seguranças’ que garantem que só é aproveita para mais plantações, “lá para janeiro”. “A pua e a malus são a fonte da vida para Ataúro”, conta o velho lian-nain, num discurso em que mistura referências ao criacionismo com recomendações aos jovens para se portarem bem, e referências às mais antigas lendas da ilha. “Isto é muito, muito antigo. Dos avós antigos. E vai continuar sempre”, explica. *** A Lusa viajou para Ataúro a convite do programa Tourism for All da USAID, no âmbito da ação de promoção de turismo doméstico #HauNiaTimorLeste *** ASP // PJA Lusa/Fim

*** António Sampaio, da Agência Lusa *** Abaktedi, Timor-Leste, 22 jul 2020 (Lusa) – Os lian-nain, contadores de histórias dos tempos dos “avós antigos” em Timor-Leste, explicam que a festa anual da colheita da noz de areca, ou betel, representa a paz entre três irmãos que durante muito tempo viveram em conflito. Uma vez por ano, e só por um dia, a população da zona central da ilha reúne-se e assim que os chefes locais e tradicionais permitem, os mais destemidos trepam acelerados até ao topo das palmeiras de areca (bua ou pua nas línguas locais) – algumas com 20 metros – e retiram cachos de nozes. Jovens e velhos, com uma pequena corda feita muitas vezes de folhas de palmeira atadas, trepam aceleradamente ao longo do esguio tronco da palmeira, cortam os pesados cachos e trazem-nos ao solo. Quem sabe podar, usa cordas e, lá no alto, une duas árvores próximas, para assim cortar mais cachos, mais rapidamente. No solo, crianças e mulheres vão apanhando os frutos que caem. A cerimónia decorre no meio de uma floresta de palmeiras de areca próximo da povoação de Abaktedi, suco de Makadade, na zona centro sul da ilha de Ataúro. Para lá chegar, é necessário suportar uma estrada esburacada e cheia de pedras, a viagem dura uns solavancados 90 minutos, para fazer os cerca de 20 quilómetros de Beloi, junto à costa, até à povoação de Abaktedi, a 700 metros de altitude, à sombra da montanha mais alta da ilha, Manucoco. No centro da floresta de palmeiras, altas e esguias, uma zona foi preparada para os convidados de honra e numa das esquinas o resto de uma palmeira serve para o tarabando, uma cerimónia tradicional timorense que, neste caso, permite pendurar ofertas aos organizadores. Peixe seco, tua mutin (o vinho tradicional de palmeira) e areca são pendurados no tronca da palmeira para serem distribuídos depois. Em todo o lado, em todas as direções, nasceu um mercado improvisado que vende desde artesanato a comida, desde roupa a frutas e verduras locais, incluindo laranjas, abacates e gigantescos kumbili, uma raiz “parecida à batata”. Entre tétum, português e alguns dialetos locais, alguns jovens, mas particularmente os mais velhos vão contando a história dos três irmãos e do importante “Festival da Sa’e Bua”, que se vai prolongar durante toda a noite. “Esta história é muito antiga mesmo”, explica Armando Soares, 67 anos, que viajou mais de duas horas a pé, a subir e a descer montes, desde Makili, a vila dos pescadores da ilha. “Antigamente nos tempos dos avós mais antigos havia três irmãos: Komateu, Leki-Toko e Kutu-Kia que andavam sempre nas lutas”, explica. Tomé Gomes, mais jovem, junta-se à conversa e vai ajudando a explicar e a traduzir. Os três irmãos estavam sempre em conflito e isso estava a causar sempre grandes problemas aos habitantes, levando até a que as terras ficassem secas e que os cestos de apanha de peixe (bubur) viessem vazios. “Decidiram fazer as pazes e esta floresta apareceu assim, de repente”, explica Abilio Araújo, 67 anos, lian-ain de Makadade e o anfitrião tradicional da zona que acolhe a cerimónia. Para cimentar a paz usaram a bua, mas também dividiram o território, lançando flechas que marcavam o que ficaria seu: Komateu lançou a sua em direção a Manroni, Leki-Toko em direção a Makili e Kutu-Kia em direção a Makadade. Komateu fica com o mar ao norte, Leki-Toko com o mar do oeste e o Kutu-Kia com o mar a sul. Hoje, os três sucos continuam a simbolizar a paz da ilha, sendo anfitriões do “Festival Sa’e Bua”, um dos principais eventos de Ataúro, desconhecido porventura da maioria dos próprios timorenses. A noz de areca, conhecida como betel, é comida fresca ou seca, misturada com folhas de malus – que eram usadas como ‘proteção’ dos jovens nos combates aos ocupantes indonésios – e com cal viva. A mistura produz um suco vermelho que, entre dentes, vão cuspindo para o chão, rindo-se com a dentadura, os lábios e a boca de cor vermelho forte. A nível químico, a areca tem como princípios ativos a arecaina e arecolina, alcaloides com efeitos comparáveis aos da nicotina. “Para quem não experimentou fica assim meio bêbado. Mas para nós ajuda a dar força. Para trabalhar”, explica um velhote, sentado, enquanto vai metendo cal na palma da mão para misturar nos dois outros ingredientes que já tem na boca. Os irmãos fizeram a paz e agora, para a assinalar, todos os anos e só por um dia, pode-se colher toda a noz de areca que conseguirem. A que ficar nas árvores fica à guarda de ‘seguranças’ que garantem que só é aproveita para mais plantações, “lá para janeiro”. “A pua e a malus são a fonte da vida para Ataúro”, conta o velho lian-nain, num discurso em que mistura referências ao criacionismo com recomendações aos jovens para se portarem bem, e referências às mais antigas lendas da ilha. “Isto é muito, muito antigo. Dos avós antigos. E vai continuar sempre”, explica. *** A Lusa viajou para Ataúro a convite do programa Tourism for All da USAID, no âmbito da ação de promoção de turismo doméstico #HauNiaTimorLeste *** ASP // PJA Lusa/Fim

*** António Sampaio, da Agência Lusa ***

Abaktedi, Timor-Leste, 22 jul 2020 (Lusa) – Os lian-nain, contadores de histórias dos tempos dos “avós antigos” em Timor-Leste, explicam que a festa anual da colheita da noz de areca, ou betel, representa a paz entre três irmãos que durante muito tempo viveram em conflito.

Uma vez por ano, e só por um dia, a população da zona central da ilha reúne-se e assim que os chefes locais e tradicionais permitem, os mais destemidos trepam acelerados até ao topo das palmeiras de areca (bua ou pua nas línguas locais) – algumas com 20 metros – e retiram cachos de nozes.

Jovens e velhos, com uma pequena corda feita muitas vezes de folhas de palmeira atadas, trepam aceleradamente ao longo do esguio tronco da palmeira, cortam os pesados cachos e trazem-nos ao solo.

Quem sabe podar, usa cordas e, lá no alto, une duas árvores próximas, para assim cortar mais cachos, mais rapidamente. No solo, crianças e mulheres vão apanhando os frutos que caem.

A cerimónia decorre no meio de uma floresta de palmeiras de areca próximo da povoação de Abaktedi, suco de Makadade, na zona centro sul da ilha de Ataúro.

Para lá chegar, é necessário suportar uma estrada esburacada e cheia de pedras, a viagem dura uns solavancados 90 minutos, para fazer os cerca de 20 quilómetros de Beloi, junto à costa, até à povoação de Abaktedi, a 700 metros de altitude, à sombra da montanha mais alta da ilha, Manucoco.

No centro da floresta de palmeiras, altas e esguias, uma zona foi preparada para os convidados de honra e numa das esquinas o resto de uma palmeira serve para o tarabando, uma cerimónia tradicional timorense que, neste caso, permite pendurar ofertas aos organizadores.

Peixe seco, tua mutin (o vinho tradicional de palmeira) e areca são pendurados no tronca da palmeira para serem distribuídos depois.

Em todo o lado, em todas as direções, nasceu um mercado improvisado que vende desde artesanato a comida, desde roupa a frutas e verduras locais, incluindo laranjas, abacates e gigantescos kumbili, uma raiz “parecida à batata”.

Entre tétum, português e alguns dialetos locais, alguns jovens, mas particularmente os mais velhos vão contando a história dos três irmãos e do importante “Festival da Sa’e Bua”, que se vai prolongar durante toda a noite.

“Esta história é muito antiga mesmo”, explica Armando Soares, 67 anos, que viajou mais de duas horas a pé, a subir e a descer montes, desde Makili, a vila dos pescadores da ilha.

“Antigamente nos tempos dos avós mais antigos havia três irmãos: Komateu, Leki-Toko e Kutu-Kia que andavam sempre nas lutas”, explica.

Tomé Gomes, mais jovem, junta-se à conversa e vai ajudando a explicar e a traduzir.

Os três irmãos estavam sempre em conflito e isso estava a causar sempre grandes problemas aos habitantes, levando até a que as terras ficassem secas e que os cestos de apanha de peixe (bubur) viessem vazios.

“Decidiram fazer as pazes e esta floresta apareceu assim, de repente”, explica Abilio Araújo, 67 anos, lian-ain de Makadade e o anfitrião tradicional da zona que acolhe a cerimónia.

Para cimentar a paz usaram a bua, mas também dividiram o território, lançando flechas que marcavam o que ficaria seu: Komateu lançou a sua em direção a Manroni, Leki-Toko em direção a Makili e Kutu-Kia em direção a Makadade.

Komateu fica com o mar ao norte, Leki-Toko com o mar do oeste e o Kutu-Kia com o mar a sul.

Hoje, os três sucos continuam a simbolizar a paz da ilha, sendo anfitriões do “Festival Sa’e Bua”, um dos principais eventos de Ataúro, desconhecido porventura da maioria dos próprios timorenses.

A noz de areca, conhecida como betel, é comida fresca ou seca, misturada com folhas de malus – que eram usadas como ‘proteção’ dos jovens nos combates aos ocupantes indonésios – e com cal viva.

A mistura produz um suco vermelho que, entre dentes, vão cuspindo para o chão, rindo-se com a dentadura, os lábios e a boca de cor vermelho forte.

A nível químico, a areca tem como princípios ativos a arecaina e arecolina, alcaloides com efeitos comparáveis aos da nicotina.

“Para quem não experimentou fica assim meio bêbado. Mas para nós ajuda a dar força. Para trabalhar”, explica um velhote, sentado, enquanto vai metendo cal na palma da mão para misturar nos dois outros ingredientes que já tem na boca.

Os irmãos fizeram a paz e agora, para a assinalar, todos os anos e só por um dia, pode-se colher toda a noz de areca que conseguirem. A que ficar nas árvores fica à guarda de ‘seguranças’ que garantem que só é aproveita para mais plantações, “lá para janeiro”.

“A pua e a malus são a fonte da vida para Ataúro”, conta o velho lian-nain, num discurso em que mistura referências ao criacionismo com recomendações aos jovens para se portarem bem, e referências às mais antigas lendas da ilha.

“Isto é muito, muito antigo. Dos avós antigos. E vai continuar sempre”, explica.

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  • May 16, 2025September 1, 2020

O Festival da Bua, a colheita da noz de areca, que marca a paz na ilha timorense de Ataúro

*** António Sampaio, da Agência Lusa *** Abaktedi, Timor-Leste, 22 jul 2020 (Lusa) – Os lian-nain, contadores de histórias dos tempos dos “avós antigos” em Timor-Leste, explicam que a festa anual da colheita da noz de areca, ou betel, representa a paz entre três irmãos que durante muito tempo viveram em conflito. Uma vez por ano, e só por um dia, a população da zona central da ilha reúne-se e assim que os chefes locais e tradicionais permitem, os mais destemidos trepam acelerados até ao topo das palmeiras de areca (bua ou pua nas línguas locais) – algumas com 20 metros – e retiram cachos de nozes. Jovens e velhos, com uma pequena corda feita muitas vezes de folhas de palmeira atadas, trepam aceleradamente ao longo do esguio tronco da palmeira, cortam os pesados cachos e trazem-nos ao solo. Quem sabe podar, usa cordas e, lá no alto, une duas árvores próximas, para assim cortar mais cachos, mais rapidamente. No solo, crianças e mulheres vão apanhando os frutos que caem. A cerimónia decorre no meio de uma floresta de palmeiras de areca próximo da povoação de Abaktedi, suco de Makadade, na zona centro sul da ilha de Ataúro. Para lá chegar, é necessário suportar uma estrada esburacada e cheia de pedras, a viagem dura uns solavancados 90 minutos, para fazer os cerca de 20 quilómetros de Beloi, junto à costa, até à povoação de Abaktedi, a 700 metros de altitude, à sombra da montanha mais alta da ilha, Manucoco. No centro da floresta de palmeiras, altas e esguias, uma zona foi preparada para os convidados de honra e numa das esquinas o resto de uma palmeira serve para o tarabando, uma cerimónia tradicional timorense que, neste caso, permite pendurar ofertas aos organizadores. Peixe seco, tua mutin (o vinho tradicional de palmeira) e areca são pendurados no tronca da palmeira para serem distribuídos depois. Em todo o lado, em todas as direções, nasceu um mercado improvisado que vende desde artesanato a comida, desde roupa a frutas e verduras locais, incluindo laranjas, abacates e gigantescos kumbili, uma raiz “parecida à batata”. Entre tétum, português e alguns dialetos locais, alguns jovens, mas particularmente os mais velhos vão contando a história dos três irmãos e do importante “Festival da Sa’e Bua”, que se vai prolongar durante toda a noite. “Esta história é muito antiga mesmo”, explica Armando Soares, 67 anos, que viajou mais de duas horas a pé, a subir e a descer montes, desde Makili, a vila dos pescadores da ilha. “Antigamente nos tempos dos avós mais antigos havia três irmãos: Komateu, Leki-Toko e Kutu-Kia que andavam sempre nas lutas”, explica. Tomé Gomes, mais jovem, junta-se à conversa e vai ajudando a explicar e a traduzir. Os três irmãos estavam sempre em conflito e isso estava a causar sempre grandes problemas aos habitantes, levando até a que as terras ficassem secas e que os cestos de apanha de peixe (bubur) viessem vazios. “Decidiram fazer as pazes e esta floresta apareceu assim, de repente”, explica Abilio Araújo, 67 anos, lian-ain de Makadade e o anfitrião tradicional da zona que acolhe a cerimónia. Para cimentar a paz usaram a bua, mas também dividiram o território, lançando flechas que marcavam o que ficaria seu: Komateu lançou a sua em direção a Manroni, Leki-Toko em direção a Makili e Kutu-Kia em direção a Makadade. Komateu fica com o mar ao norte, Leki-Toko com o mar do oeste e o Kutu-Kia com o mar a sul. Hoje, os três sucos continuam a simbolizar a paz da ilha, sendo anfitriões do “Festival Sa’e Bua”, um dos principais eventos de Ataúro, desconhecido porventura da maioria dos próprios timorenses. A noz de areca, conhecida como betel, é comida fresca ou seca, misturada com folhas de malus – que eram usadas como ‘proteção’ dos jovens nos combates aos ocupantes indonésios – e com cal viva. A mistura produz um suco vermelho que, entre dentes, vão cuspindo para o chão, rindo-se com a dentadura, os lábios e a boca de cor vermelho forte. A nível químico, a areca tem como princípios ativos a arecaina e arecolina, alcaloides com efeitos comparáveis aos da nicotina. “Para quem não experimentou fica assim meio bêbado. Mas para nós ajuda a dar força. Para trabalhar”, explica um velhote, sentado, enquanto vai metendo cal na palma da mão para misturar nos dois outros ingredientes que já tem na boca. Os irmãos fizeram a paz e agora, para a assinalar, todos os anos e só por um dia, pode-se colher toda a noz de areca que conseguirem. A que ficar nas árvores fica à guarda de ‘seguranças’ que garantem que só é aproveita para mais plantações, “lá para janeiro”. “A pua e a malus são a fonte da vida para Ataúro”, conta o velho lian-nain, num discurso em que mistura referências ao criacionismo com recomendações aos jovens para se portarem bem, e referências às mais antigas lendas da ilha. “Isto é muito, muito antigo. Dos avós antigos. E vai continuar sempre”, explica. *** A Lusa viajou para Ataúro a convite do programa Tourism for All da USAID, no âmbito da ação de promoção de turismo doméstico #HauNiaTimorLeste *** ASP // PJA Lusa/Fim


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